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22 de Outubro de 2017

Fidel: a desconstrução de um mito (1)

Geyson Santos, Advogado
Publicado por Geyson Santos
há 11 meses

A história oficial nos diz que Cuba era um lugar dominado pelo ditador Fulgêncio Batista, um lugar ruim para se viver, até vir Fidel a libertando e transformando-a num verdadeiro paraíso.

Alguns o chamam de presidente. Outros falam da “democracia cubana”.

Mas as primeiras perguntas que me incomodaram eram as seguintes: “Se Cuba é um lugar tão bom, por que, rotineiramente, vejo, nos noticiários, cubanos fugindo para os Estados Unidos?”. “Se é tão boa, porque seus atletas e médicos quando vão a outros países não querem mais voltar e pedem asilo político?” “Se há democracia em Cuba, como é possível que um mesmo homem tenha passado mais de 50 anos no poder e, ao sair, colocou o irmão em seu lugar?”

Primeiramente, há a necessidade de demonstrar o que era Cuba antes de Fidel.

Na década de 50, Havana, junto com Miami e Las Vegas, formava um triangulo de negócios que envolvia grandes hotéis, prostituição, cassinos administrados por mafiosos e muito, muito turismo. Esse fato é retratado de forma icônica por Francis Ford Coppola, no filme “O Poderoso Chefão”. Apesar de ser somente um filme, nesse quesito há veracidade. Todos esses "empresários", de origem duvidosa, mantinham negócios com o ditador de Cuba à época, Fulgêncio Batista.

Contudo, a despeito do dito acima, devido aos grandes investimentos havidos, o turismo cresceu muitíssimo, levando a ilha caribenha a um desenvolvimento nunca visto até então.¹ Milhares e milhares de americanos escolhiam Cuba como seu destino de férias. Muito dinheiro ficava naquele país. Isso proveu os cubanos de muita riqueza.

Deve ser notado que, a Segunda Guerra havia terminado recentemente, o mundo estava em recessão e essa alta taxa de turismo era muito bem vinda pelo povo cubano:

“A recuperação da economia durante a Segunda Guerra e o crescimento do turismo tiveram um efeito estimulante no setor da construção, levando a um boom que encorajou a pesquisa de formas e novas tecnologias” ²

A recíproca era verdadeira. Se por um lado muitos americanos aproveitavam suas férias em Cuba, ainda um número maior de cubanos desfrutavam as suas nos Estados Unidos.³ Segundo o historiador Louis A. Pérez Jr., era tão grande o trânsito turístico entre os países, que as lojas americanas postavam anúncios em jornais cubanos procurando atrair clientela. Um pouco antes da revolução perpetrada por Fidel, empresas cubanas investiram mais de meio bilhão de dólares nos Estados Unidos.⁴

Sim, eu sei o que você vai me dizer: “Mas Geyson, era somente os ricos que desfrutavam desse conforto, a burguesia”. Não. Não era não:

“Os cubanos tinham mais televisores, telefones e jornais per capita que qualquer outro país na América Latina, estavam em terceiro lugar no ranking de rádios per capita (atrás do México e do Brasil). Em 1950, quase 90% das residências cubanas tinham um rádio que podia sintonizar mais de 140 estações” ⁵

Ao que tudo indica, o desenvolvimento econômico trouxe, também, uma efervescência cultural e um grande desenvolvimento educacional. Artistas cubanos, como Xavier Cugat, se tornaram celebridades nos Estados Unidos, difundindo ritmos, até então, restritos aos territórios cubanos, como, por exemplo, bolero, rumba, chachachá. Estavam no auge, suas músicas ficaram eternizadas em seriados como I Love Lucy.

“Éramos o que Las Vegas é hoje. Não, éramos muito mais! Éramos Las Vegas e a Broadway misturadas – e o mundo todo ia a Havana para nos assistir (Olga Guilhot – ‘a rainha do bolero’)” 6

Em toda a ilha havia 1.700 escolas privadas e 22 mil públicas. Cuba dedicava 22% de seu orçamento à educação. Havia faculdades e escolas de ensino técnico.⁷ Era de dar inveja aos atuais governos.

Perceba, não estou querendo justificar o regime ditatorial de Fulgêncio. Não. Ele perseguiu e desapareceu com opositores políticos, proibiu a circulação de jornais, prendeu arbitrariamente, torturou, matou, restringiu direitos... Era um ditador, e o poder deveria ser tirado de suas mãos. Contudo, há a necessidade de demonstrar o que Cuba era antes de Fildel, para que se possa perceber no que ele a transformou.

A primeira contradição que deve ser notada é que Cuba não era o que nos querem fazer crer. Um lugar miserável que, com a vinda de Castro se tornou um lugar maravilhoso. Não. Era um país que estava em franca ascensão econômica, em crescimento e desenvolvimento...

Mas então veio Fidel... E tudo mudou...


1 – Morruzzi, Peter. Havana before Castro.

2 – Rodríguez, Eduardo Luis. The Havana Guide: Modern Architecture.

3 – Fontova, Humberto. O Verdadeiro Che Guevara.

4 – A. Pérez Jr., Louis. Cuba and United States: Ties of Singular Intimacy.

5 – Hernandez, Deborah Pacini. Rockin’ las Americas: The Global Politics of Rock in Latin America.

6 – Lowinger, Rosa. Tropicana Nights.

7 – Corso, Pedro. Cuba: Perfiles del Poder.

3 Comentários

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Geyson você o Bernardo César Coura são insuperáveis em se tratando de publicar artigos, mas você o supera ao fugir do nosso feijão com arroz. do nosso meio jurídico, parabéns pela prolixidade. Aguardo os próximos capítulos desse artigo que vem de encontro a falta de conhecimento das gerações hodiernas que reverenciam o mito e não conhecem o genocida. Imitando o face vou pedir, tragam um mito para esse troféu. Abraços. continuar lendo

Só esperando escreverem textão sobre Marinaleda na Europa. continuar lendo