jusbrasil.com.br
17 de Agosto de 2017

Fidel: a desconstrução de um mito (2)

Geyson Santos, Advogado
Publicado por Geyson Santos
há 8 meses

Fidel mudou tudo... Mas mudou para o quê?

Após trinta anos de regime castrista, o mundo pode ter uma pequena mostra do que se tinha tornado a esfuziante Cuba da década de 50.

Em 1980, após um incidente diplomático envolvendo a embaixada peruana e autoridades locais, centenas de milhares de cubanos aproveitaram para deixar o país em direção aos Estados Unidos:

O êxodo do Mariel, um dos grandes movimentos migratórios do século XX, completa 35 anos. Mais de 120.000 cubanos saíram da ilha em apenas sete meses — entre abril e outubro de 1980 — com destino aos Estados Unidos, principalmente Miami, que se viu tomada pela chegada em massa e repentina de cidadãos que fugiam do regime de Fidel Castro (...) “O mito da revolução cubana começa a cair com Mariel”, afirma sem pestanejar Sebastián Arcos, diretor associado do Instituto de Pesquisas Cubanas da Universidade Internacional da Flórida. (El País – 14/09/2015).

Usando de um veículo, alguns cidadãos cubanos invadiram a embaixada peruana e se abrigaram pedindo asilo político. Fidel Castro ameaçou os diplomatas peruanos dizendo que se não entregassem os exilados, deixaria de prover segurança a embaixada. Foi o que ocorreu. Contudo, os efeitos foram inesperados. Quando o povo percebeu que não mais havia guardas castristas a obstar-lhes o contato com autoridades estrangeiras, foram em massa pedir asilo, para fugir de Cuba. Em sete meses foram 120 mil.

Esse foi o maior movimento migratório, em tempos de paz, num período tão curto de tempo, do século 20. Muito antes de Mariel nos ser motivo de preocupação, foi aos americanos.

E, então, a pergunta que deve ser feita é: por que tantas pessoas quereriam fugir de um lugar tão “maravilhoso”?

A explicação dada por aqueles que apoiam o regime cubano é que todas esses refugiados eram criminosos comuns e que Fidel estava se livrando deles. Esses fugitivos faziam parte de massa carcerária cubana.

Nessa época Cuba tinha mais de 9 milhões de habitantes. Admitir que esses 120 mil eram criminosos comuns, seria admitir que 1,22 % da população cubana era constituída de bandidos, ou seja, Cuba tinha o maior índice de criminosos do mundo. Sua população carcerária, em proporcionalidades, era inigualável. Por si só essa afirmação é um non sense.

Se levarmos em conta o Brasil, fica claro o absurdo da afirmação acima. De uma população de 200 milhões, 600 mil são presos, ou seja, 0,30% da população O que em proporcionalidade seria 300 criminosos para cada 100 mil habitantes. Se o dito com relação a Mariel fosse verdade, isso significaria que para cada 100 mil habitantes cubanos, 1.224 eram bandidos, uma taxa absurdamente alta para um pais daquelas proporções.

Como é possível que um país de dimensões continentais como o Brasil tenha uma população carcerária de 0,30% e uma ilhota como Cuba, uma taxa quase quatro vezes maior, de 1,22% de sua população? Como é possível que um país desestruturado, cheio de desigualdade social, como o Brasil tenha um taxa de criminosos três vezes menor do que o paraíso socialista cubano?

Para se entender o absurdo dessa afirmação, devemos levar em conta os Estado Unidos, o país que mais encarcera no mundo. Com uma taxa de 0,83% de uma população de mais de 300 milhões de habitantes; ou seja, para cada 100 mil habitantes, 833 estão presos. Assim, como é possível que em Cuba esse número fosse de 1.224.

Só há duas hipóteses que podem ser aceitas: ou Cuba é o país com o maior índice de criminalidade do mundo ou o dito que seus refugiados são criminosos é uma mentira. Em ambos os casos a visão romântica se esvai.

Ademais esse argumento desmorona a dialética socialista. Se o crime provem da desigualdade social e Cuba e um paraíso socialista, cheio de igualdade, logo não seria explicável que em tal lugar maravilhoso houvesse um número tão grande de “foras-da-lei”.

Desde a implantação do regime castrista, estima-se que, aproximadamente, 2,5 milhões de cubanos pediram asilo político a outros países. Dizer que um país de 11 milhões de habitantes, tem 2,5 milhões de criminosos, ou seja, quase um quarto de sua população, é algo jamais visto em toda a História.

Além do mais, isso é menosprezar o serviços de inteligência e de imigração dos países que recebem refugiados cubanos. Que pais ficaria recebendo criminosos de outros países por mais de 50 anos?! Isso é uma afirmação absurda!

É virtualmente impossível que o motivo da fuga desse cubanos seja por serem criminosos. O que fica claro pelas palavras transcritas abaixo, de alguém que teve a oportunidade estar com a população cubana.

O que transcrevo abaixo são as palavras de um homem que se identifica com os ideais da esquerda. Jornalista, professor, cientista social, pós-doutor, Juremir Machado da Silva, após visitar Cuba, brindou-nos com uma vívida imagem no que a revolução castrista transformou o lugar:

“(...) tentei pela milésima vez, aderir ao comunismo. Usei todos os chavões que conhecia para justificar o projeto cubano. Não deu certo. Depois de 11 dias na ilha de Fidel Castro, entreguei de novo os pontos (..) Volto chocado: Cuba é uma favela no paraíso caribenho.

Não fiquei trancado no mundo cinco estrelas do hotel Habana Libre. Fui para a rua. Vi, ouvi e me estarreci. Em 42 anos, Fidel construiu o inferno ao alcance de todos. Em Cuba, até os médicos são miseráveis. Ninguém pode queixar-se de discriminação. É ainda pior. Os cubanos gostam de uma fórmula cristalina: ‘Cuba tem 11 milhões de habitantes e 5 milhões de policiais’. Um policial pode ganhar até quatro vezes mais do que um médico, cujo salário anda em torno de 15 dólares mensais. José, professor de História, e Marcela, sua companheira, moram num cortiço, no Centro de Havana, com mais dez pessoas (em outros chega a 30). Não há mais água encanada.

Calorosos e necessitados de tudo, querem ser ouvidos. José tem o dom da síntese: ‘Cuba é uma prisão, um cárcere especial. Aqui já se nasce prisioneiro. E a pena é perpétua. Não podemos viajar e somos vigiados em permanência. Tenho uma vida tripla: nas aulas, minto para os alunos. Faço a apologia da revolução. Fora, sei que vivo um pesadelo. Alívio é arranjar dólares com turistas’. José e Marcela, Ariel e Julia, Paco e Adelaida, entre tantos com quem falamos, pedem tudo: sabão, roupas, livros, dinheiro, papel higiênico, absorventes. Como não podem entrar sozinhos nos hotéis de luxo que dominam Havana, quando convidados por turistas, não perdem tempo: enchem os bolsos de envelopes de açúcar. O sistema de livreta, pelo qual os cubanos recebem do governo uma espécie de cesta básica, garante comida para uma semana. Depois, cada um que se vire. Carne é um produto impensável.

Resumem (os nativos): ‘Cuba é uma ditadura’. Peço demonstrações: ‘Aqui não existem eleições. A democracia participativa, direta, popular, é uma fachada para a manipulação. Não temos campanhas eleitorais, só temos um partido, um jornal, dois canais de televisão, de propaganda, e, se fizéssemos um discurso em praça pública para criticar o governo, seríamos presos na hora’.

José mostra-me as prostitutas, dá os preços e diz que ninguém as condena: ‘Estão ajudando as famílias a sobreviver’. Por uma de 15 anos, estudante e bonita, 80 dólares. Quatro velhas negras olham uma televisão em preto e branco, cuja imagem não se fixa. Tentam ver ‘Força de um Desejo’. Uma delas justifica: ‘Só temos a macumba (santería) e as novelas como alento. Fidel já nos tirou tudo. Tomara que nos deixe as novelas brasileiras’ (Correio do Povo – 05/11/2012)

Perceba, essa afirmação não foi dada por um conservador, de orientação política à direita. A pessoa que escreveu essas palavras é um homem que se declara socialista, que tentou ser comunista à la Fidel. E mesmo ele não suportou Cuba. Fidel transformou o país em um inferno ao alcance de todos.

Médicos que ganham, aproximadamente, R$ 60 (sessenta reais) por mês. Casas sem água, com mais de trinta pessoas. Garotas se prostituindo para poder ajudar suas famílias. Cinco milhões de agentes de segurança. Um Estado policial, para aqueles que sabem o que isso significa. Racionamento de comida, eleições de fachada... Controle dos meios de comunicação...

Não, eles não fogem de Cuba porque são criminosos, fogem porque aquele lugar é um verdadeiro inferno!

WELCOME CUBA’S PARADISE!

1 Comentário

Faça um comentário construtivo para esse documento.

Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)