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11 de Dezembro de 2017

Eles não eram os "mocinhos" (03)

Seus crimes – terrorismo

Geyson Santos, Advogado
Publicado por Geyson Santos
há 11 meses

“O terrorismo é uma arma que o revolucionário não pode abandonar.”

(Carlos Marighella – Minimanual do Guerrilheiro Urbano).

Aeroporto de Guararapes

No dia 25 de julho de 1966, uma forte explosão fez tremer o saguão principal do aeroporto de Guararapes em Recife. A onda de choque despedaçou a sacada de vidro do saguão, fazendo que estilhaços fossem projetados em todas as direções... Pessoas feridas, desorientadas, mortas... Sendo arrastadas... Fumaça, destroços... Caos, pânico... Confusão...

Mas o que estava acontecendo?

Uma bomba explodiu, deixando um rastro de destruição e vítimas.

Naquela manhã, um guarda-civil, responsável pela segurança do aeroporto, viu uma maleta abandonada próxima a livraria “Sodiler”. Pensando se tratar de pertence esquecido por algum usuário do aeroporto, a pegou com intuito de deixá-la no “achados e perdidos”. Grande erro. Nesse momento houve a explosão.

Talvez, naquela época não houvesse treinamento antibombas.

O guarda perdeu uma das pernas. Duas pessoas que estavam próximas a ele foram mortas pelos estilhaços do artefato. Um jornalista que teve seu abdômen dilacerado e um militar que teve o crânio esfacelado. Várias pessoas ficaram feridas, em menor ou maior gravidade. Um advogado, uma professora, um funcionário público e uma criança. Ao todo foram, aproximadamente, 15 vítimas, entre mortos e feridos.

Mas, por que alguém explodiria uma bomba num lugar cheio de civis?

Naquela manhã, o líder do regime militar instaurado à época, o General Costa e Silva, iria desembarcar em Guararapes. Contudo, um imprevisto de última hora causou uma mudança de itinerário, fazendo que seguisse por terra. A bomba era para ele. Não tendo General para explodir, explodiram os civis mesmos.

Aglomerados são alvos preferencias de terroristas. Ainda que não existissem grupos terroristas nos moldes que conhecemos hoje, como o próprio Carlos Marighella disse, os revolucionários não podiam abrir mão desse meio.

Foi no que deu.


Por anos, apesar de todas as investigações procedidas, não se soube a autoria. Ainda que houvesse fortes suspeitas sobre o grupo denominado “Partido Comunista Revolucionário”, não havia elementos probatórios suficientes.

Contudo, isso mudou. Transcrevo abaixo um trecho do livro “Combate na Trevas”, do intelectual marxista Jacob Gorender:

“Membro da comissão militar e dirigente nacional da AP, Alípio de Freitas encontrava-se em Recife em meados de 1966, quando se anunciou a visita do general Costa e Silva, em campanha farsesca de candidato presidencial pelo partido governista Aliança Renovadora Nacional (ARENA). Por conta própria, Alípio decidiu promover uma aplicação realista dos ensinamentos sobre a técnica de atentados.

Em entrevista concedida a Sérgio Buarque de Gusmão e editada pelo Jornal da República, logo depois da anistia de 1979, Jair Ferreira de Sá revelou a autoria do atentado do Aeroporto de Guararapes por militantes da AP.

Entrevista posterior, ao semanário “Em Tempo”, referiu-se a Raimundinho como um dos participantes da ação. Certamente, trata-se de Raimundo Gonçalves de Figueiredo, que se transferiu para a VAL-Palmares (onde usava o nome de guerra Chico) e morreu, a vinte sete de abril de 1971, num tiroteio com policiais de Recife.”

O ocorrido em Guararapes não foi ato isolado. Somente naquele ano foram sete atentados à bomba em Recife; tendo como alvos lugares como a Câmara Municipal, a Assembleia Legislativa, um órgão do governo americano e uma entidade de representação de estudantes.

Estavam levando a sério os ensinamentos de Marighella.


Duas coisas me chamam atenção. A primeira é a figura de Carlos Marighella que ensinou o terror e hoje é visto por muitos como herói. Como canta os “Racionais”:

“Carlos Marighella

A postos para o seu general

Mil faces de um homem leal

Protetor das multidões

Encarnações de célebres malandros

De cérebros brilhantes

Reuniram-se no céu

O destino de um fiel, se é o céu o que Deus quer

Mártir ou mito, um maldito sonhador

Bandido da minha cor

Um novo messias

(...)

Coisas do brasil, super-herói, mulato

Defensor dos fracos, assaltante nato” (Música “Mil Faces de um Homem Leal”)

Será que Bronw não conhece a vida de Marighella ou será que se identifica com terroristas. Que tal fazer uma música à Bin Laden e chama-lo de “homem leal”. Não, acho que ele não faria isso. Talvez, considere que essa seja somente uma das “mil faces de um homem”, que ele considera, “leal”. A face do terrorismo, que mata mulheres, crianças, idosos. Decaptando-os, esquartejando-os, explodindo-os, sequestrando-os, ateando fogo, defenestrando-os... Somente mais uma das “mil faces”.

Num ponto concordamos: ele era um homem leal. Leal a seus próprios ideais revolucionários. Leal a ponto de utilizar de quaisquer, e todos, os meios disponíveis para concretizar seus ideais, inclusive o terrorismo. Se pessoas inocentes tivessem que morrer, isso era somente mais um passo rumo à revolução. Esse é o seu “protetor das multidões”. Alguém que está disposto a passar por cima delas para chegar a um ideal utópico. Diga-se de passagem, uma revolução comunista. Verdade, era um “malandro”, “um bandido”. Um “messias” às avessas!

O guada municipal que perdeu a perna era um ex-jogador de futebol, muito querido na cidade, apelidado de “Paraíba”. Nunca mais pôde desfrutar de seu esporte favorito, graças a pessoas que seguiram os ensinamentos terroristas de Carlos Marighella. Eis o seu “messias” Brown!

Aquele repórter tinha uma vida inteira pela frente! Os seus sonhos, projetos e anseios foram tirados. O que um repórter tinha a ver com a “resistência democrática” contra os regime militar?! Era só um inocente!

“O conhecimento de vários tipos de munições e explosivos é outro aspecto a considerar. Entre os explosivos, a dinamite tem que ser bem entendida. O uso de bombas incendiárias, de bombas de fumaça, e de outros tipos são conhecimentos prévios indispensáveis.

(...)

Aprender a fazer e construir armas, preparar bombas Molotov, granadas, minas, artefatos destrutivos caseiros, como destruir pontes, e destruir trilhos de trem são conhecimentos indispensáveis a preparação técnica do guerrilheiro.” (Carlos Marighella – Minimanual do Guerrilheiro Urbano).

Para esse tipo de pessoa tudo é válido. Qualquer coisa é legítima, contanto que suas metas revolucionárias sejam alcançadas. Em princípio, é exatamente o que os terroristas islâmicos pensam. Não importa se inocentes irão morrer, não importa quem será atingido ou quanto dano será causado. O que importa é a revolução, o que importa é o Califado universal.

A segunda, é que pessoas que participaram desses grupos que roubavam, assassinavam, explodiam bombas e sequestraram, hoje, recebem vultuosas pensões do Governo, pagas com o nosso dinheiro, por terem sido “perseguidas” durante o regime militar. Foram pagas indenizações milionárias a esses criminosos. Muitos deles são deputados e senadores, com altos cargos na República. Não é de se admirar que esse país seja administrado por bandidos... Na literalidade da palavra.

O Brasil tem um histórico de indenizar criminosos.

Muitos anos depois a “Comissão da Verdade” inocentou os envolvidos. Diga-se de passagem, políticos.

Não há lugar como este no mundo. Somos um caso a ser estudado.


Preto como você, pobre como você, de periferia como você, mas não, eu não me identifico com terroristas e, muito menos, canto à honra deles.


Outros

Houve atentados à bomba contra faculdades, cinemas, monumentos públicos, jornais, residências, empresas públicas e privadas, igrejas, autoridades públicas, dentre outros. Essa foi a resistência "democrática" que a intelectualidade brasileira diz ter havido durante o regime militar. Muito "democrática"!

Pela numerosidade e pouca informação seria difícil dissertar sobre cada um deles. Contudo, pela minha pesquisa, ficou evidente que o ano de 1968 foi o mais conturbado no que se refere ao tema. Sendo o caso mais emblemático, o atentado ao II QG do Exército, no qual participou a ex-presidente Dilma Rousseff:

  • Atentado à bomba contra a biblioteca do Consulado Norte-Americano, na Rua Padre Manoel, onde um estudante perdeu a perna e mais dois ficaram feridos;
  • Atentado à bomba na sede do Departamento de Polícia Federal;
  • Atentado à bomba no jornal O Estado de São Paulo, com três feridos;
  • Atentado à bomba contra o Quartel General do II Exército, quando morreu o soldado Mário Kosel Filho e ficaram feridos mais 5 militares;
  • Atentado à bomba contra a loja Sears, da Água Branca;
  • Bomba explode na porta da Bolsa de Valores de São Paulo;
  • Atentado à bomba contra a sede da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), no Rio;
  • Bombas explodem em frente ao DOPS e às varas distritais da Lapa e de Santana.

Cabe salientar também que, de todos esses atentados (algumas fontes numeram 200), três deles são atribuídos a grupos de extrema-direita. É difícil chegar a uma conclusão porque há detalhes que são contraditórios. Será necessário deixar que a história traga um pouco mais de luz a esses eventos.

Analise pertinente, é sobre a autoria dessas bombas. Assim como grupos terroristas atuais, os revolucionários tinham o costume de, por meio da panfletagem, arrogarem a si a autoria desses atentados. Portanto, na grande maioria deles não restam dúvidas sobre a lavra.

Considerações finais

Algum tempo atrás, conversava com uma historiadora da USP sobre esse período de nossa história. Quando citei esses acontecimentos, ela me disse que minha visão era minimalista demais. Era necessário entender os motivos e o contexto histórico.

Pois bem, então, caso haja motivos e contexto histórico, me será permitido matar, roubar, sequestrar e explodir. Sendo assim, pessoas como Hitler, Stalin, Mao Tsé-Tung estão justificadas. Seus ideais e contexto histórico justificam as milhões de mortes perpetradas por eles?!

Não, não há justificativa para o assassinato, o sequestro, o roubo, independentemente do motivo que se alegue, não importa quais sejam os ideais.

Se a vida humana é tirada por um criminoso comum ou político, em ambos os casos a vida humana foi tirada e um crime foi cometido. Não há justificativa. Salvo quando se tratar de legítima defesa própria ou de terceiros, ou estrito cumprimento de dever legal.

Por fim, não, eles não eram os “mocinhos”... Eram terroristas.

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