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21 de Fevereiro de 2018

Voltando a 2013 – Passe Livre e Black Blocs (1)

Geyson Santos, Advogado
Publicado por Geyson Santos
há 2 anos

“O protesto contra o aumento da tarifa do transporte público, em São Paulo, terminou em confronto entre mascarados e policiais militares na noite desta sexta-feira (8). Houve vandalismo em ruas do Centro e muitas bombas foram lançadas pela PM. Convocado pelo Movimento Passe Livre (MPL), o ato começou pacífico na Praça Ramos de Azevedo, em frente ao Theatro Municipal, e seguiu por ruas da região.

A Secretaria da Segurança Pública diz que 17 pessoas foram detidas. Um artefato explosivo foi encontrado com um dos presos, segundo a polícia. Três PMs ficaram feridos por pedras atiradas no confronto. Três agências bancárias foram danificadas. Um carro da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), um da SPTrans e dois da PM acabaram depredados.” (G1 – 08/01/2016)

“O protesto do Movimento Passe Livre (MPL) contra o reajuste da tarifa de ônibus, trens e metrô terminou em vandalismo e confronto, na noite de ontem, entre black blocs e policiais militares, no centro de São Paulo. O tumulto deixou um rastro de destruição pelas ruas, com focos de incêndio, ônibus depredados e agências bancárias atacadas. Até as 21h, havia um PM e um manifestante feridos.” (Correio Brasiliense – 09/01/2016)

“O protesto do movimento Passe Livre (MPL) contra o reajuste da tarifa de ônibus, trens e metrô terminou em vandalismo e confronto, na noite desta sexta-feira, 8, no centro de São Paulo. O tumulto causado sobre tudo pelo ataque dos black blocs a PMs, deixou um rastro de destruição pelas ruas. Até às 23h, havia pelo menos 3 PMs e um manifestante feridos. Ao todo, 17 pessoas foram detidas, acusadas de práticas criminosas e posse de artefato explosivo (bomba caseira).” (Estadão – 08/01/2015).

No final da semana passada, o Movimento Passe Livre voltou às primeiras páginas dos jornais e telejornais de todo o país relacionado ao aumento de passagem, protestos, vandalismo e aos Black Blocs.

A pergunta que está na hora de todo brasileiro fazer é: por que nas grandes manifestações pelo “Fora Dilma” não apareceu nenhum black blocker, não houve vandalismo, nem atos de violência, mas é só o Passe Livre, com as bandeiras vermelhas e amarelas, aparecer, e, lá está o vândalos modernos, a violência e depredação?

Talvez, a pergunta que deva ser feita é: por que onde há bandeiras vermelhas e amarelas (de movimentos lenistas, trotskistas, socialista e/ou comunistas; ou estudantis de mesma vertente) ali estão os black bockers quebrando tudo em sua fúria destruidora?

Qual correlação há? Quem é esse chamado movimento “sem lideres” denominado Passe Livre? Quem são os tais Black Blocs?

Somente compreendendo essas coisas é que se poderá entender a natureza desses movimentos de massa com aparente fulcro social.

O que é o movimento Passe Livre?

Apesar de o MPL somente ter ficado conhecido no ano de 2013, com as grandes manifestações de julho, sua história remonta a quase dez anos antes.

Tudo começou com protestos embrionários. Na Bahia (2003), com a Revolta do Buzu, e em Florianópolis (2004) com a Revolta das Catracas, onde os mesmos métodos de 2013 foram usados: todos eles tendo como justificativa aparente o aumento de passagens; na Bahia foi dito que o movimento não tinha líderes; em Florianópolis, obstruíram a principal ponte da cidade, paralisando, desta forma, toda Florianópolis; nesse mesmo protesto bombas foram jogadas em frente ao gabinete do prefeito e o líder do MPL, Marcelo Pomar, foi preso acusado de incitar linchamento.

Aqui, cabe salientar que, muito antes de se ouvir falar em Black Blocs, no segundo protesto que se tem notícia do MPL, bombas já eram explodidas durante as manifestações; depredação, confronto com a polícia, fechamento de vias públicas eram a regra:

Em Florianópolis, estudantes voltaram a entrar em choque com a polícia na noite de sexta-feira. Foi o sexto dia de protestos contra o aumento no preço das passagens de ônibus. A população está preocupada com os atos de vandalismo. Na manhã deste sábado ainda era possível ver as marcas do ataque ao maior terminal de ônibus de Florianópolis: vidros quebrados, cercas derrubadas, carros depredados. Foi o desfecho violento de uma manifestação que começou pacífica no fim da tarde de sexta-feira. Cerca de 3 mil estudantes fecharam as pontes que são o único acesso a Florianópolis. Depois que as pistas foram liberadas, um grupo de manifestantes atacou com pedras o terminal do Centro da cidade. Houve confronto com os seguranças. A Polícia Militar foi chamada para acabar com a baderna (...) “As pessoas estão com bastante medo", disse a empresária Arlene Salles. (Jornal Nacional - 03/07/2004)

O paralelo é inegável.

Interessante, não?! Muito antes de haver os mascarados de preto, o chamado movimento “pacifico”, o Passe Livre, já promovia quebra-quebra e confronto em seus protestos de “minoria violenta”. Aqui o primeiro mito começa a cair por terra: a maioria pacífica – do Passe Livre – em relação à minoria violenta – os Black Blocs.

Mais tarde, o que seria alegado é que a Revolta das Catracas foi a inspiração para a fundação do MPL. Contudo, não deve ser olvidado que o líder fundador desse movimento estava nesse protesto como um de seus organizadores; ou seja, o MPL já estava lá. Os protestos de Florianópolis não lhe foram inspiração, antes foram organizados pelo próprio MPL, ainda que não ostentasse essa denominação:

“Dois estudantes que se dizem descrentes dos partidos brasileiros, mas que acreditam na revolução juvenil, foram os protagonistas dos protestos que provocaram a suspensão do reajuste das tarifas de ônibus de Florianópolis, na semana passada (...) Marcelo Pomar, 22, e Lucas de Oliveira, 23, estavam à frente do movimento pelo passe livre estudantil na capital de Santa Catarina (...) O discurso fluente na defesa das ideias confere a Oliveira um ar de " cérebro "do grupo.” (Folha 12/07/2004)

E, lá se vai o segundo mito, ou seja, que o MPL não tem líderes. Por óbvio, que isso é uma falácia. Sim, o movimento tem líderes, tem fundadores e tem porta-vozes. O MPL não é um movimento espontâneo – de pessoas nas ruas – como disseram durante 2013 e, querem nos fazer crer. Não. O MPL é muito bem organizado e tem objetivos específicos. Objetivos que tem gestado deste 2003.

É necessário ir mais além. Quem são essas pessoas? Quais são seus objetivos?

Um mês após as manifestações de Florianópolis, em julho, as lideranças do MPL, se reuniram ao norte dessa cidade, num camping. Estavam presentes, segundo as palavras dos próprios participantes, aqueles “organizados na extrema esquerda” ¹. Ainda nesse encontro, ficou definido “desencadear um processo de revoltas simultânea jamais visto no Brasil” ².

Perceba, segundo as palavras dos próprios integrantes do movimento, se nota que, primeiro: há uma liderança; segundo: eles estavam se organizando para conseguir produzir uma tipo de revolta endêmica – que abalaria o Brasil – desde 2004. O que conseguiram fazer quase dez anos depois, com os protestos de 2013.

O “Movimento Passe Livre”, mais especificamente com esta roupagem, foi criado no ano de 2005, durante o Fórum Social Mundial. Aqui mais uma parte do quebra-cabeça começa a se encaixar. O movimento foi criado por militantes do PCO, do PSTU, do PCB e do Psol, que decidiram não permitir que as pequenas desavenças entre seus partidos interferissem na condução de seus objetivos. Foi daí que surgiu o mito que o MPL é um movimento sem partido. O que não significa que é contra partidos ou que não se identifique e apoie uma determinada linha de pensamento político.³

“As manifestações que tumultuaram o centro da cidade durante dez dias tiveram planejamento de Pomar, Oliveira e de outros cerca de 30 ativistas da JR (Juventude Revolução Socialista). O grupo se declara trotskista-leninista -" camarada "é o tratamento usual entre eles e nos bate-papos na internet-, nega pertencer a um movimento nacional organizado e se diz líder de si mesmo

(...)

Inspirada em ensinamentos de sobrevivência financeira de Lenin, a" empresa "produz e vende camisetas, botons, bonés e outros acessórios para manter o caixa. (...) Fala orgulhoso que é bisneto de Pedro Pomar, dirigente do PC do B (...) O avô do estudante, Wladimir Pomar, foi coordenador da campanha de Lula em 1989. Os jovens Pomar e Oliveira militaram nas tendências" Trabalho e Articulação de Esquerda ", do PT, que deixaram para traz em 2001. Nem em Luiz Inácio Lula da Silva eles dizem ter votado em 2002.” (Folha 12/07/2004)

Assim fica evidenciado que o Movimento Passe Livre foi criado por setores de esquerda, e de extrema esquerda, visando, não soluções para o aumento da passagem, mas “desencadear um processo de revoltas simultânea jamais visto no Brasil.”

Isso não sou eu que digo. São eles próprios:

“O MPL não veio do nada. O MPL é um movimento de esquerda que ao longo de sua existência relacionou-se com seus pares, com o Movimento Sem Terra e os movimentos urbanos de moradia. Encontrou apoio em intelectuais e em certa blogosfera progressista, da qual a principal referência é o tarifazero. Org. Se, em parte, representa ruptura com algumas características institucionalizadas da democracia formal, de outra parte também se constitui com uma continuidade das tradições da luta da esquerda, transformadora da sociedade. ⁴ ”

Não há como ser mais claro: o objeto não tem nada a ver com passagens, o objetivo e cooptar pessoas com falsos pretextos, leva-las às ruas em megamanifestações, a ponto de gerar uma situação desestabilizadora que possa criar uma ruptura com as instituições democráticas. O que é isso senão uma revolução?!

As palavras de Saul Alinsky, teórico da esquerda revolucionária, sintetiza muito bem os objetivos do MPL: “O problema nunca é o problema, é sempre a revolução.”

Dos muitos exemplos que poderiam ser dados, a mim me parece o mais emblemático a revolução bolchevique, que começou conclamando as massas às ruas por mais pão e terminou com a instauração do regime comunista soviético. O pretexto não importa, o que vale é abrir um caminho, da maneira que seja, para introduzir a revolução. As pessoas, quando em sã consciência, jamais participariam de uma revolução, mas por motivos que parecem justificáveis são capazes de sair às ruas para manifestar-se, não percebendo que sob essas falsas justificativas estão sendo usadas para criar uma situação desestabilizadora que possa introduzir a revolução. Teoria política pesada. Que resultou no que vimos em 2013, e quase, por muito pouco, ao objetivo final; conforme alertou a advogada e professora da USP Janaína Paschoal em “Apelo a todos os Franciscanos”:

“A manutenção dos protestos, com a mesma frequência e natureza, implica cavar uma cova para a democracia (...) Uma onda de protestos sem foco e sem liderança, e com atos de violência, pode ensejar uma situação de estado de defesa e de sítio. Já vimos esse filme em 1964, é o que mais me preocupa.”

Apesar da polêmica, a professora Janaína estava com a razão. Se os protestos, por causa do rumo violento que tomaram, não tivessem desmotivado a população que, de boa-fé, até então, participava, com certeza chegaríamos a uma situação fora de controle, prontos ao enrijecimento por parte do governo. A situação buscada pelo MPL.

Agora em 2016 vemos, novamente, as mesmas cartas marcadas, fazendo o mesmo. Sei que os objetivos não mudaram. A pergunta que me faço é: será que desta vez a população brasileira, assim como este que vos fala, será enganada como em 2013? Será que o ponto de ruptura será alcançado desta feita?

A situação é muito propícia. O caos político. Uma presidente sem credibilidade alguma. Estatais falidas. Inflação alta. Moeda fraca. Desemprego. O caos controlado. Que por meio das ações do MPL pode se tornar o caos generalizado. Endêmico.

" Violência em pequena escala nunca resolveu nada. " Simpson

2 Comentários

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Realmente é um fato a se pensar. Porque em 2013, além e muito mais do que protestar pelo aumento da tarifa, se pediu o fim da PEC37, reforma política, mais investimento na educação e na saúde, fora Dilma era coro geral, assim como fora Renan, também vi coro na legalização da cannabis e até cartaz contra os "iluminatis", percebe-se que na época foram para as ruas diversos brasileiros de diversas classes sociais, reivindicando aquilo que acreditavam ser o mais urgente. Me lembro que o movimento Diga Não a PEC 37 se deu para que não fosse retirado poder do MP de investigar casos de corrupção, pois na época o brasileiro era surpreendido com casos de prisão de pessoas que jamis se imaginava que um dia iriam para cadeia. Bem, e os BBs? No inicio os BBs participaram das manifestações afim de garantir a segurança dos manifestantes que eram agredidos pela PM com balas de borracha e gás lacrimogênio, e se você tem peito para encarar frente a frente a PM afim de que a população pudesse se refugiar em local seguro ou ser socorrida por voluntários, você é do tipo que é "contra o sistema", e quem o é tem que os bancos estão no alto escalão de comando do sistema opressor. E parando para pensar como o senhor sugeriu, eu pergunto: Poque em protestos verde amarelo de classe media alta não tem PM atirando bala de borracha, gás ou descendo a borracha? Porque não tem "vandalismo"? Ops pensei que jogar o carro contra o vidro de um órgão público fosse vandalismo também. continuar lendo

Do que eu me lembro de 2013 no Rio:
(1) Fora Dilma não era consenso em 2013. Tinha gente a favor também. Fora Renan era mais forte pois o senador já havia se envolvido em vários escândalos.
(2) A população foi contra a PEC37 mas poucos sabem como funciona o processo investigativo criminal e qual é a atribuição do MP.
(3) Quanto aos BB, no início até atuavam como apoio, mas "infiltrados" (de partidos? do crime organizado? vândalos sem propósito? ou só aproveitadores?) começaram a atrapalhar essa função. Além dos bancos, depredaram e saquearam lojas e bancas de jornal. Me lembro de uma loja da Toulon do Leblon que foi depredada e o dono e os funcionários choravam.

Nos protestos "verde e amarelo" teve até deputado armado em cima de carro de som. Sem falar nos que estão pedindo a volta da ditadura militar.

Não sei o que é pior: vândalos ou fascistas. continuar lendo